O mercado funerário tardou a profissionalizar-se, mesmo diante de uma demanda tão inevitável quanto universal. Nesse sentido, Tiago Oliva Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, é um dos que reconhecem abertamente essa contradição e trabalham a partir dela: o mercado funerário brasileiro ainda carrega marcas de uma operação historicamente familiar, intuitiva e pouco sistematizada, e a distância entre esse passado e as exigências do presente é, precisamente, onde residem as maiores oportunidades de diferenciação.
Neste artigo, você vai entender o que significa profissionalizar uma operação funerária de forma concreta e sustentável.
O que profissionalizar significa na prática?
Profissionalização não é sinônimo de crescimento de receita nem de modernização tecnológica isolada. Trata-se de um conjunto articulado de mudanças que abrange a estrutura organizacional, os processos operacionais, a gestão de pessoas, a comunicação com o cliente e a governança financeira da empresa. Conforme analisa Tiago Oliva Schietti, funerárias que investem apenas em uma dessas dimensões, sem integrar as demais, tendem a criar desequilíbrios que comprometem o resultado final, como empresas que implantam sistemas digitais sofisticados sem treinar as equipes para utilizá-los ou que estruturam processos rigorosos de atendimento sem oferecer condições adequadas de trabalho aos colaboradores.
A profissionalização começa, na maioria dos casos, pelo mapeamento honesto do que a empresa faz bem e do que faz mal. Auditorias de processo, pesquisas de satisfação com famílias atendidas, análise de indicadores operacionais e benchmarking com empresas do setor em outros estados e países são ferramentas que permitem identificar gargalos com precisão antes de definir prioridades de investimento.
Gestão de pessoas em um setor de alta sensibilidade
Poucas atividades profissionais exigem tanto das pessoas quanto o trabalho funerário. Lidar diariamente com a morte, com famílias em sofrimento agudo e com as exigências físicas e emocionais de uma operação que não para nos fins de semana, feriados ou madrugadas coloca os profissionais do setor em uma posição de vulnerabilidade que poucos gestores reconhecem com a profundidade necessária.
Tiago Oliva Schietti enfatiza que a profissionalização do mercado funerário passa obrigatoriamente pela valorização das pessoas que o sustentam. Planos de carreira estruturados, remuneração compatível com a complexidade da função, programas de saúde mental, treinamentos técnicos regulares e cultura organizacional que reconhece o esforço cotidiano são elementos que reduzem a rotatividade, elevam a qualidade do atendimento e constroem equipes capazes de sustentar o crescimento da empresa no longo prazo.

Expansão com planejamento: o risco de crescer rápido demais
O crescimento acelerado do mercado funerário brasileiro nos últimos anos atraiu investidores e impulsionou a expansão de grupos que operam em múltiplas cidades e estados. Esse movimento trouxe benefícios reais, como maior acesso a capital, economias de escala e aceleração da modernização tecnológica, mas também expôs riscos que empresas menos experientes subestimaram.
Segundo Tiago Oliva Schietti, expandir uma operação funerária sem consolidar os processos na unidade de origem é um dos erros mais comuns e mais custosos do setor. A qualidade do atendimento funerário depende de pessoas treinadas, de protocolos testados e de uma cultura organizacional que leva tempo para se formar. Replicar uma operação deficiente em novas praças apenas multiplica os problemas, comprometendo a reputação da marca em mercados onde a confiança é construída lentamente e destruída com rapidez.
Indicadores de desempenho e gestão baseada em dados
Uma das marcas mais claras da profissionalização em qualquer setor é a adoção de indicadores de desempenho que permitam tomar decisões com base em dados, e não em intuição. No mercado funerário, indicadores como tempo médio de atendimento, índice de satisfação das famílias, taxa de conversão de planos antecipados, custo por atendimento, ocupação de jazigos e margem por modalidade de serviço são métricas que, quando monitoradas de forma sistemática, revelam a saúde real da operação.
Na perspectiva de Tiago Oliva Schietti, empresas que ainda gerenciam suas operações sem dashboards de desempenho estruturados operam com um nível de risco desnecessário em um mercado que se torna progressivamente mais competitivo. A digitalização dos processos, quando bem implementada, gera naturalmente os dados necessários para essa gestão, tornando o investimento em tecnologia ainda mais justificável do ponto de vista estratégico.
Formação e certificação como diferenciais competitivos
O mercado funerário brasileiro carece de uma cultura robusta de formação técnica e certificação profissional. Diferentemente de países como Estados Unidos e Reino Unido, em que a atuação como diretor funerário exige formação específica, aprovação em exames nacionais e renovação periódica de certificações, o Brasil não possui exigências formais de qualificação para a maioria das funções do setor.
Conforme destaca Tiago Oliva Schietti, essa ausência regulatória não deveria ser interpretada como permissão para operar sem qualificação, mas como uma oportunidade para que empresas sérias se diferenciem investindo voluntariamente na formação de suas equipes. Cursos técnicos, certificações associativas, participação em congressos do setor e programas de mentoria com profissionais experientes constroem um capital humano que nenhum concorrente consegue copiar rapidamente.
Profissionalizar o mercado funerário é, antes de tudo, um ato de respeito pelas famílias que confiam ao setor um dos momentos mais delicados de suas vidas. Empresas que assumem esse compromisso com seriedade constroem negócios mais sólidos, equipes mais engajadas e reputações que resistem ao tempo, que, no mercado funerário, é sempre o árbitro mais justo.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez