Distrito agropecuário da Zona Franca: Lições de um projeto

Ingrid Norsten
Ingrid Norsten
Alfredo Moreira Filho

O empresário que atuou no fomento agrícola do Amazonas, Alfredo Moreira Filho, elucida que o Distrito Agropecuário da Zona Franca de Manaus reunia tudo o que um projeto rural costuma pedir ao governo: terra gratuita, crédito barato, estradas e assistência técnica. Ainda assim, boa parte dos empreendimentos não prosperou. A contradição entre incentivos abundantes e resultados modestos é justamente o que torna essa experiência tão instrutiva.

O distrito foi criado pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), órgão federal que administra o modelo de incentivos fiscais da capital amazonense. A ideia era complementar o polo industrial com um polo agropecuário a cerca de 70 quilômetros da cidade, numa área de aproximadamente 600 mil hectares. Entender por que o plano esbarrou no campo ajuda a avaliar qualquer nova proposta de desenvolvimento rural para a Amazônia; acompanhe a análise a seguir.

Como o distrito foi desenhado?

O modelo previa a doação de lotes com floresta nativa, de 500 a 3 mil hectares, a quem apresentasse um projeto de exploração aprovado. Para que as propriedades fossem acessíveis, era preciso abrir estradas no meio da mata, e a infraestrutura básica ficou a cargo do poder público, que contratou cerca de 500 quilômetros de vias vicinais.

A execução dessas estradas coube à Companhia de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas (Codeagro), empresa estadual de fomento sem experiência prévia em obras rodoviárias. Como diretor técnico da companhia, Alfredo Moreira gerenciou a construção das vicinais, batizadas de ZF-01 a ZF-18, com apoio de um engenheiro civil experiente do antigo departamento nacional de estradas. A obra foi concluída no prazo, e a estrutura viária deixou de ser obstáculo.

Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho

Incentivos que atraíam investidores

Outros estímulos se somaram à terra e às estradas. A Superintendência da Borracha financiava o plantio de seringueiras pelo Banco da Amazônia, com juros subsidiados e sem correção monetária do saldo devedor, num período de inflação alta. Na prática, a dívida encolhia com o tempo. A escritura dos lotes ainda podia servir de garantia para o próprio financiamento.

A promessa tecnológica completava o pacote. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) indicava variedades de seringueira que, em tese, resistiriam ao mal-das-folhas, a principal doença da cultura. Atraído pelo conjunto, Alfredo Moreira Filho também teve projeto aprovado e recebeu escritura de 3 mil hectares para implantar seringais. A corrida pelos lotes mostrou que o desenho financeiro funcionava; restava saber se a floresta concordaria.

O que o campo respondeu?

Os clones indicados não apresentaram, no campo, a resistência esperada. O fungo continuou atacando as folhas novas e fazendo as plantas definharem. Ao mesmo tempo, a vegetação que rebrotava após o desmatamento, chamada de capoeira, crescia com vigor impressionante e exigia roçadas constantes, elevando o custo de manutenção muito além do previsto nos projetos.

Somavam-se a isso a acidez dos solos de terra firme e a dificuldade de obter insumos no estado. Diante desse quadro, o próprio Alfredo Moreira concluiu que as tecnologias trazidas das universidades do Sul não bastavam para viabilizar a agricultura na região e decidiu vender a área. A decisão, tomada antes de grandes perdas, reflete uma leitura comum entre empresários do setor naquele momento: as incertezas técnicas superavam os incentivos financeiros.

Lições que continuam válidas

O caso do distrito mostra que crédito e infraestrutura são condições necessárias, mas não suficientes. Sem tecnologia adaptada ao ambiente amazônico, homogeneizar grandes áreas com uma única cultura atrai todas as pragas e doenças da espécie, como já ocorria na floresta, onde as seringueiras sobrevivem justamente por crescerem dispersas.

Experiências bem-sucedidas da mesma época vieram de quem trabalhou a favor do ambiente, como os cultivos de ciclo curto nas várzeas férteis do rio Urubu, associados ao prêmio Engenheiro do Ano do Amazonas que o Crea/AM concedeu a Alfredo Moreira Filho. Em linhas gerais, o que o Distrito Agropecuário ensina é que a Amazônia não precisa ser intocada nem tratada como fronteira comum: precisa de pesquisa feita para ela, antes do investimento.

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